Durante a carreata da Festa do Motorista — 2026, crianças ocuparam por alguns instantes o lugar de seus pais na cabine dos caminhões. Por trás das fotografias, que registraram a intimidade dessas famílias com a estrada, surgiu uma pergunta importante para o transporte internacional: quando chegar a vez dessa geração, a profissão ainda será uma escolha capaz de despertar orgulho?
Na carreata em Uruguaiana, uma cena se repetiu em diferentes caminhões. Crianças subiram nas cabines, acomodaram-se no banco do motorista e seguraram o volante que, na maior parte das vezes, ainda parecia grande demais para suas mãos. Os pés não alcançavam os pedais, mas a maneira como ocupavam aquele espaço mostrava que nenhuma delas estava entrando em um ambiente desconhecido.

Para filhos de motoristas internacionais, a cabine faz parte da vida familiar. É de lá que o pai se despede antes de seguir viagem e é por aquela mesma porta que ele retorna depois de cruzar estradas, fronteiras e países. Algumas dessas crianças já viajaram pelo Mercosul, e cresceram ouvindo conversas sobre documentos, aduanas, cargas, prazos e períodos de espera que nem sempre podem ser previstos por quem fica em casa.
As fotografias feitas durante a carreata poderiam permanecer apenas como uma lembrança daquele dia, mas os depoimentos das famílias revelaram algo maior. Em uma profissão que atravessa gerações, muitos filhos ainda admiram o trabalho dos pais e demonstram vontade de seguir o mesmo caminho. Ao mesmo tempo, alguns desses pais, embora orgulhosos da própria trajetória, prefeririam que os filhos escolhessem outra atividade.

É nesse contraste, entre a admiração de quem observa e a experiência de quem conhece a estrada por dentro, que está uma das questões mais importantes para o futuro da profissão.
UM FILHO QUE QUER IR, UM PAI QUE CONHECE O PREÇO
Arthur tem 11 anos diz já saber o que quer para o futuro: ser motorista. Se depender dele, dará continuidade a uma história iniciada pelo avô e mantida hoje pelo pai, Dagoberto Junior. O menino já acompanhou viagens pelo Mercosul, conhece parte da rotina da cabine e fala da profissão com a admiração de quem cresceu vendo o caminhão como uma extensão da própria casa.

Para Tamara, de 35 anos, o sonho do filho é motivo de orgulho, mas também de preocupação. Como esposa de motorista, ela conhece as dificuldades que Arthur ainda não consegue dimensionar. Sabe o que significa passar datas importantes à distância, enfrentar uma emergência familiar sem a presença de quem está viajando e conviver com a preocupação enquanto o caminhão segue por outro país.
Tamara conta que já aceitou a vontade do filho, embora tenha feito isso “com o coração apertado”. Caso Arthur realmente escolha a profissão, espera que encontre mais respeito, segurança, melhores condições nas estradas e locais adequados para o descanso. Acima de tudo, deseja que ele compreenda que o transporte internacional exige uma vida dividida entre aquilo que acontece na estrada e tudo o que continua acontecendo dentro de casa.
“Vai sabendo que vai ter que sustentar duas vidas: uma solitária e outra com a família.”

Dagoberto também tem 35 anos e conhece bem os dois lados dessa escolha. Mesmo sabendo que o filho sonha em seguir seus passos, o primeiro conselho que lhe daria seria não entrar na profissão. Sua resposta não vem de alguém que deixou de gostar do que faz, mas de um motorista que aprendeu quanto custa permanecer na estrada.
Dagoberto puxa a referência: “a estrada é mágica, Bino!”, lembrando a liberdade de conhecer lugares, acordar diante de paisagens diferentes e vivenciar que dificilmente fariam parte de outra rotina. Mas a mesma estrada exige que o motorista desenvolva habilidades que ultrapassam a condução do veículo. Ele afirma que, em muitos momentos, é preciso ser o próprio médico, psicólogo e mecânico, além de administrar a solidão, os imprevistos e a falta de apoio.
No transporte internacional, a responsabilidade também passa pelos procedimentos de fronteira, pela documentação da carga e do veículo e pelas regras encontradas em cada país. A viagem não depende apenas do tempo percorrido na rodovia, pois pode ser interrompida por liberações, inspeções e esperas que aumentam a distância entre o motorista e sua família.
Dagoberto encontrou uma maneira própria de explicar ao filho o peso dessa rotina. “[Você] terá que carregar duas cargas pesadas: a do cliente, que quer sua chegada mais breve possível, e a saudade de casa.”
Ao falar sobre o futuro de Arthur, ele não tenta apresentar a profissão como inteiramente boa ou ruim. Prefere descrevê-la como ela se revelou ao longo dos anos, com liberdade e cobrança, orgulho e desvalorização, descobertas e ausências. No fim de seu depoimento, resume essa contradição em uma frase que dificilmente seria dita por alguém que não conhece a estrada: “Uma boa e ótima profissão que vai ser horrorosa e digna”.
Arthur ainda enxerga o caminhão a partir do banco do passageiro e das viagens feitas ao lado do pai. Dagoberto, por sua vez, sabe que o entusiasmo do filho precisará conviver com uma realidade que nem sempre aparece nas fotografias. Entre os dois está o desafio de construir uma profissão que preserve o que desperta o sonho do menino, mas que não continue impondo as mesmas dificuldades que levam o pai a aconselhá-lo a desistir.
O CONSELHO QUE SE REPETE
A preocupação de Dagoberto também aparece na história de Bruno, de 38 anos. Quando decidiu ser motorista, ouviu do próprio pai que deveria procurar outro caminho. Hoje, pai de Breno, de 3 anos, Bruna, de 10, e Tifhany, de 14, percebe-se repetindo o mesmo conselho que recebeu.

“Como meu pai desejou para mim, eu não gostaria que meu filho seguisse a profissão. ”
Bruno ama o que faz e se diz grato pela vida que construiu por meio do transporte, mas não esconde a distância entre a imagem da profissão nas redes sociais e as situações enfrentadas durante uma viagem. “É muito lindo no Instagram, mas a realidade é outra.”
O que mais o incomoda é o tratamento recebido pelos motoristas em determinados locais. Ele gostaria que os filhos, caso algum deles siga a mesma profissão, encontrassem respeito em todas as etapas da operação, inclusive nos pontos de carregamento, descarga, fiscalização e fronteira.

Silviane, de 35 anos, acompanha essa rotina como esposa e também se preocupa com a possibilidade de os filhos escolherem a estrada. Ela fala sobre insegurança, trechos rodoviários em más condições e uma profissão que ainda é julgada por pessoas que desconhecem as responsabilidades assumidas pelo motorista.
As respostas do casal apontam que gostar da profissão não obriga ninguém a esconder seus problemas. Bruno pode reconhecer tudo o que conquistou por meio do transporte e, ao mesmo tempo, desejar que os filhos não enfrentem as mesmas situações. Essa contradição, que se repete em mais de uma família, ajuda a explicar por que a renovação dos motoristas não depende apenas de formação profissional ou interesse por caminhões.
Em setembro de 2025, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou a pesquisa “Perfil e Preferências dos Caminhoneiros” 2025. Os dados apresentados pela entidade indicavam idade média de 45 anos entre os caminhoneiros, com 35% acima dos 50. Embora esses números tratem do transporte rodoviário de forma ampla e não isolem o segmento internacional, eles ajudam a dimensionar uma preocupação que também chega às empresas que operam entre países.
O transporte internacional possui exigências próprias. Não basta conhecer a estrada e dominar o veículo, pois o motorista também precisa compreender procedimentos aduaneiros, documentos, controles migratórios e normas que mudam de um país para outro. Formar um profissional preparado para essa atividade exige tempo e experiência, o que torna a falta de renovação ainda mais relevante para o segmento.
Quando pais aconselham os filhos a procurar outro caminho, a decisão não permanece restrita à família. Ela também antecipa uma pergunta que transportadoras e entidades precisarão responder nos próximos anos: quem estará preparado para conduzir as cargas brasileiras pelas fronteiras quando a atual geração deixar a estrada?

A VIAGEM TAMBÉM ACONTECE EM CASA
Cristian, de 28 anos, é pai de Lívia, de 5. Caso a filha decida ser motorista, ele espera que encontre mais valorização, boas estradas e estruturas de apoio adequadas ao longo das rotas. Seu desejo é que o trabalho seja observado com outros olhos, principalmente por quem depende do transporte, mas raramente conhece as condições enfrentadas por quem o realiza.

Bárbara, de 27 anos, fala a partir da experiência de quem acompanha as partidas e espera pelos retornos.
“Como esposa de motorista, eu sei que essa profissão exige muito não só de quem está na estrada, mas de toda a família. A saudade, a preocupação e a espera fazem parte da nossa rotina.”
Se Lívia escolher o mesmo caminho do pai, Bárbara espera que encontre uma profissão mais humana, com segurança, reconhecimento e qualidade de vida.
A rotina, lembra Bárbara, se ajusta dentro de casa: datas precisam ser reorganizadas, decisões são tomadas à distância e a previsão de retorno pode mudar conforme as condições encontradas pelo caminho ou nas fronteiras.
Para essas famílias, a ausência aparece nas datas importantes, na espera por uma mensagem e na expectativa do retorno. Quando falam sobre o futuro da profissão, não pedem que a estrada deixe de exigir responsabilidade, esperam que ela permita ao motorista exercê-la sem abrir mão de tantas partes da vida familiar.
O CAMINHÃO NOVO NÃO PARTE SOZINHO
Quando o desejo de procurar outro caminho se repete dentro de muitas famílias, a consequência começa a aparecer no pátio das empresas. A dificuldade de formar uma nova geração de motoristas já interfere na compra de veículos, na aceitação de projetos e na capacidade de crescimento das transportadoras.

Julia Borghetti trabalha há 14 anos na Borg Express, empresa fundada por seus pais em Uruguaiana. Atuando diretamente na operação, ela acompanha uma procura por profissionais que se tornou permanente. Mesmo quando não existem caminhões parados ou previsão imediata de ampliar a frota, a empresa mantém processos seletivos e currículos ativos.
Para ela, o problema não está somente na quantidade de pessoas habilitadas para dirigir. Está na redução do número de profissionais dispostos a aceitar condições que, durante décadas, foram consideradas parte inevitável da atividade.
“Hoje, eu não diria que a mão de obra está escassa. Os profissionais que temos no mercado já não querem mais se submeter a situações que antes eram consideradas normais da profissão.”
No transporte internacional, a formação desse profissional exige competências adicionais. Além dos longos períodos longe de casa, o motorista precisa compreender documentos de comércio exterior, procedimentos aduaneiros e regras de diferentes países. Também deve estar preparado para fiscalizações, interrupções de rodovias, condições severas de inverno e esperas que não dependem de sua vontade.
Antes de comprar caminhões ou aceitar um novo projeto, a empresa de Julia avalia quantos profissionais conseguirá contratar, quanto tempo será necessário para formá-los e se as exigências da operação poderão aumentar a rotatividade.
Ao mesmo tempo, afirma Julia, o padrão exigido pelos clientes se tornou mais alto. Espera-se que o motorista domine procedimentos de segurança, condução econômica, amarração de cargas e diferentes normas operacionais. A contradição aparece quando essa cobrança não é acompanhada pelo mesmo cuidado com o tempo de quem está na estrada. Julia relata situações em que motoristas permanecem dias aguardando documentos ou a liberação de uma carga, mas encontram resistência quando precisam cumprir o descanso porque a operação passou a ser considerada urgente.
A trajetória de Julia também aproxima o olhar empresarial das famílias fotografadas durante a carreata. Assim como alguns motoristas preferem que os filhos escolham outra profissão, seus pais também não desejavam que ela seguisse o mesmo caminho. A atividade exige disponibilidade constante, envolve riscos e impõe custos emocionais a quem dirige e a quem administra uma transportadora.
Ainda assim, Julia decidiu continuar. A escolha nasceu do orgulho pelo que seus pais construíram, do sentimento de pertencimento e da vontade de preservar uma história familiar. São os mesmos elementos que fazem tantas crianças olharem para o caminhão dos pais e imaginarem o próprio futuro dentro daquela cabine.
Na Borg Express, a tentativa de manter esse futuro possível passa pela formação de iniciantes, pelo acompanhamento dos motoristas e pelo cuidado com as condições oferecidas durante o trabalho.
“O principal é enxergar além do profissional que dirige o caminhão e considerar o ser humano que está deixando uma família em casa.”
Mesmo para empresas que desejam crescer, comprar novos veículos é apenas parte da decisão. O caminhão novo não parte sozinho. Para colocá-lo na estrada, será necessário construir uma profissão que pessoas preparadas também estejam dispostas a escolher.

QUANDO ELAS ASSUMEM O VOLANTE
Entre as crianças fotografadas durante a carreata também estavam meninas. Para Fabiane, de 41 anos, vê-las no banco do motorista traz uma lembrança particular. Ela própria cresceu cercada pelo transporte, em uma família de motoristas, com avô, pai, tios e primos ligados à profissão. Aprendeu a dirigir observando o pai, e teve na família apoio para seguir o caminho que escolheu.

“Eu fui rainha de uma Festa dos Motoristas quando tinha mais ou menos oito anos e hoje sou a própria motorista”, conta.
Fabiane soma dez anos como motorista profissional e, antes das rodovias, também trabalhou como condutora de ambulância. Há quase cinco anos passou a atuar no transporte internacional e hoje percorre rotas entre Brasil, Argentina e Chile.
A profissão que acompanhou sua infância tornou-se também fonte de realização. “Sinto-me realizada com as paisagens durante o trajeto, com o privilégio de conhecer novos lugares e de cuidar do meu objeto de trabalho, que acaba sendo minha principal casa.”
É justamente por conhecer a beleza e as exigências dessa escolha que Fabiane consegue falar às meninas com simplicidade. “Eu diria que elas podem ser o que quiserem, é só acreditarem.”
Sua experiência também mostra que a presença feminina traz desafios próprios para uma atividade cuja estrutura ainda nem sempre acompanha a realidade de quem está ao volante. Fabiane cita locais sem banheiros femininos ou com instalações precárias, dificuldades de alimentação durante cargas e descargas e a necessidade de espaços mais adequados e seguros para descanso. No seu caso, porém, o desafio também envolve conciliar a vida familiar.
“A maior dificuldade para mim é conseguir conciliar ser mãe e motorista.”
A experiência de Fabiane desloca discussão da capacidade para as condições de permanência profissão. Ela já conduz um caminhão pelo Mercosul, conciliar estrada com maternidade e encontrar estruturas adequadas e seguras ainda são desafios concretos.
Sua história ajuda a enxergar as meninas daquela carreata de outra maneira. Uma menina que cresceu entre motoristas, foi rainha de uma Festa dos Motoristas e recebeu da família incentivo para seguir seu caminho hoje atravessa fronteiras conduzindo seu próprio caminhão.

O QUE PRECISA MUDAR ANTES QUE ELES ALCANCEM OS PEDAIS
Ao longo de 30 anos de atuação no transporte internacional, Gladys Vinci, vice-presidente executiva da Associação Brasileira de Transportadores Internacionais, acompanhou uma atividade que se tornou mais tecnológica, segura e complexa. Os caminhões ganharam conforto, os sistemas de rastreamento permitiram comunicação em tempo real e parte dos processos passou a circular digitalmente. O motorista, por sua vez, deixou de ser visto apenas como condutor e assumiu uma função tática na cadeia logística.
Essa evolução, entretanto, não ocorreu na mesma velocidade em todos os aspectos. Rodovias e fronteiras ainda apresentam deficiências, os tempos de espera permanecem excessivos e continuam existindo problemas de segurança e de condições adequadas para o descanso.
“O profissional evoluiu, mas as condições em que ele exerce sua atividade ainda não acompanharam essa evolução.”
Para Gladys, a dificuldade de renovação é uma realidade e tende a aumentar. O transporte internacional procura profissionais capazes de lidar com tecnologias embarcadas, protocolos, legislações de diferentes países e uma operação cada vez mais exigente. Ao mesmo tempo, os jovens buscam maior previsibilidade, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e perspectivas claras de crescimento. Se a profissão continuar associada apenas ao sacrifício, às longas ausências e à falta de reconhecimento, perderá espaço na escolha das novas gerações.
As mudanças mais urgentes, em sua avaliação, passam por rodovias seguras, fronteiras mais eficientes, redução das filas, combate à criminalidade e reconhecimento social. A demora de uma operação também prolonga a ausência do motorista e aumenta o desgaste de quem viaja e de quem permanece em casa.
“Cada hora parada em uma fila representa menos tempo com a família e maior desgaste físico e emocional.”
Gladys considera que a responsabilidade deve ser compartilhada. Às transportadoras cabe investir em segurança, capacitação, tecnologia e valorização das pessoas. As entidades precisam aproximar o setor privado do poder público e defender melhorias para a atividade. Ao Estado compete oferecer infraestrutura, segurança jurídica, processos mais simples e fronteiras compatíveis com a importância do comércio internacional.
“Quando vejo uma criança sentada ao volante de um caminhão, eu penso na responsabilidade que temos de construir um setor do qual ela possa sentir orgulho.”

QUANDO ELES ALCANÇAREM OS PEDAIS
Na manhã da carreata, as crianças não precisavam compreender os procedimentos de uma fronteira, as cobranças de uma operação ou o esforço necessário para conciliar a viagem com a vida familiar. Naquele momento, bastava subir no caminhão, experimentar o banco dos pais e descobrir como o mundo parecia visto por trás de um volante muito maior do que suas mãos.

Talvez Arthur mantenha o sonho de continuar a história iniciada pelo avô. Talvez outras crianças escolham profissões diferentes. A renovação do transporte vai demandar que a boleia ainda seja uma escolha possível quando a infância terminar e a realidade da estrada se tornar conhecida.
Será preciso diminuir a distância entre a responsabilidade atribuída ao motorista e as condições oferecidas para que ele trabalhe, descanse e preserve sua vida familiar. O sinal mais claro de mudança será o dia em que pais e mães puderem apresentar a profissão aos filhos sem precisar aconselhá-los a desistir dela.
As fotografias não oferecem essa resposta. Elas apenas deram rosto e idade a uma pergunta que o setor já não pode adiar: quando essas crianças puderem assumir o volante, encontrarão uma profissão da qual seus pais tenham orgulho ou uma profissão da qual ainda tentem protegê-las?

Produção e apuração: Valeria Vinci
Edição jornalística: Manuel Marques
Associação Brasileira de Transportadores Internacionais — ABTI

