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Artigo | O custo de um Sul desconectado: quando a carga para, a competitividade recua

Artigo escrito pela vice-presidente executiva da ABTI, Gladys Vinci, com base nos pontos principais abordados durante a participação no evento Sul Export.

Um caminhão parado na fronteira ocupa poucos metros de infraestrutura, mas imobiliza uma parcela muito maior da economia. Naquela carga estão a entrega prometida ao comprador, o insumo aguardado pela indústria, o capital do exportador e a programação das próximas viagens. Na cabine, está um profissional cujo tempo e descanso também precisam ser considerados.

É a partir dessa realidade que precisamos discutir multimodalidade e conectividade no Sul do Brasil. A capacidade produtiva do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul precisa encontrar continuidade nos corredores logísticos que conectam fábricas, propriedades rurais, armazéns, recintos alfandegados, portos e países vizinhos.

 A eficiência dessa rede depende da qualidade das conexões entre suas etapas.

A imprevisibilidade também compõe o frete

O transportador pode calcular a distância, estimar o consumo de combustível e programar a manutenção da frota. A incerteza sobre o tempo de uma travessia internacional, entretanto, compromete o planejamento de toda a operação.

Enquanto o veículo aguarda, permanecem os custos com pessoal, seguros, capital imobilizado e estrutura empresarial. A perda de produtividade se estende à viagem seguinte, que pode ser adiada ou deixar de acontecer. Para o embarcador, a mesma espera pode exigir estoques maiores, alterar compromissos comerciais e comprometer conexões com outros modais.

Por isso, ampliar uma ponte ou melhorar uma rodovia exige planejamento conjunto dos acessos, estacionamentos, recintos e serviços de controle nos dois países. Se a capacidade de uma etapa cresce sem que as seguintes estejam preparadas, a fila apenas muda de endereço.

Precisamos avaliar os investimentos pelo tempo e pela confiabilidade que acrescentam à viagem completa.

A informação precisa atravessar antes da carga

Na fronteira, a conectividade também depende da capacidade de compartilhar dados e coordenar decisões.

Quando a mesma informação precisa ser digitada em diferentes sistemas, a digitalização incorpora ao ambiente eletrônico uma ineficiência que deveria eliminar. Cada repetição consome tempo, cria possibilidade de divergência e transfere custos administrativos aos operadores.

Os dados do conhecimento internacional de transporte, o CRT, e do manifesto internacional de carga e trânsito aduaneiro, o MIC/DTA, precisam ser aproveitados ao longo da operação, com padrões comuns, integrações eletrônicas e responsabilidades definidas.

Esse avanço exige reconhecimento dos documentos digitais, análise antecipada de risco, coordenação das inspeções e compatibilidade entre os horários dos órgãos intervenientes. A liberação por uma autoridade perde efeito operacional quando a etapa seguinte permanece indisponível.

Integração deve ser medida pela redução do retrabalho e do tempo de travessia.

A participação do setor privado na concepção e nos testes dos sistemas é decisiva. Transportadores conhecem os pontos em que o procedimento formal encontra dificuldades na execução. Incorporar essa experiência permite identificar falhas antes que elas se transformem em filas.

Multimodalidade exige conexões utilizáveis

Rodovias, ferrovias, hidrovias e cabotagem ampliam as possibilidades de organização da logística. Para que essa complementaridade produza resultados, são necessários terminais de transferência, acessos adequados, capacidade disponível e previsibilidade de atendimento.

Armazéns e recintos alfandegados têm papel estratégico nessa conexão. Sua contribuição deve ser avaliada também pela capacidade de organizar os fluxos e reduzir a permanência desnecessária de cargas e veículos.

Uma operação multimodal precisa fazer sentido no percurso completo. Os ganhos de escala de um trecho podem ser consumidos pelas esperas e pelos custos de transferência no trecho seguinte.

A próxima interrupção precisa encontrar alternativas preparadas

Os eventos climáticos que atingiram o Rio Grande do Sul reforçaram a necessidade de incorporar a continuidade operacional ao planejamento da infraestrutura.

Reconstruir exige considerar vulnerabilidades, capacidade de drenagem, resistência das estruturas e manutenção. Também exige preparar alternativas para quando a rota principal estiver indisponível.

Uma rota de contingência precisa ter pontes compatíveis com os veículos, condições seguras de circulação, apoio aos motoristas e capacidade para receber tráfego adicional. No transporte internacional, precisa ainda contar com procedimentos previamente coordenados para alterações de percurso e de ponto de passagem.

A flexibilidade entre modais depende da mesma preparação. Terminais, contratos, equipamentos e protocolos de emergência precisam estar estruturados antes da crise.

O tempo do motorista faz parte da equação

Qualquer proposta de eficiência logística deve incorporar condições reais de descanso, segurança e atendimento aos motoristas. Uma programação que exige acompanhar filas durante o dia e avançar durante a madrugada consome a capacidade humana de sustentar a operação com segurança.

Na perspectiva da ABTI, a agenda para o Sul exige compromissos verificáveis: reduzir a variabilidade dos tempos de travessia, eliminar informações repetidas, coordenar os controles e preparar alternativas operacionais.

 A infraestrutura entrega seu valor quando permite que a produção chegue ao destino com segurança, previsibilidade e custo competitivo. É esse resultado que deve orientar nossas decisões sobre conectividade e integração regional.

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